“Duas vezes se morre: primeiro na carne, depois no nome”.

Manuel Bandeira

 “O verdadeiro cristianismo rejeita a ideia de que uns nascem pobres e outros nascem ricos, e que os pobres devem atribuir a sua pobreza à vontade de Deus”, dizia D. Hélder Câmara (1900-1999), arcebispo de Olinda e conhecido mundialmente pela defesa dos direitos humanos, realidade que o colocou na lista dos perseguidos pela cruel e sanguinária ditadura militar brasileira. Estar ao lado dos pobres, questionar e buscar as causas da pobreza tem sido crime, conforme a acaciana compreensão dos grupos reacionários e desumanos, incrustados na política brasileira. Mas o que dizer de uma infinidade de pessoas que estão sempre pronunciando o nome de Cristo em suas orações, discursos, nas frases em carros, camisas, faixas e fazem tudo o que Jesus Cristo sempre condenou?

Jesus Cristo – o maior de todos os homens – fez opção pelos pobres, e seus fiéis seguidores, como Dom Hélder Câmara, para citar apenas um entre muitos deles, continuaram e continuam com a grandiosa missão de defender os humildes, despossuídos e explorados. Entretanto, a maioria dos “cristãos” com poder político, seus representantes e asseclas, preferem andar na contramão dos ensinamentos e práticas de solidariedade e defesa dos pobres, desenvolvidas, incondicionalmente por Cristo.

Cristãos de discurso, cristãos de goela, cristãos de camiseta, cristão de faixas, cristão de procissão estão sempre presentes, entretanto, uma eterna dicotomia entre o dizer e o fazer, entre o parecer e o ser cristão.

O Brasil dos últimos três anos é um espetáculo de escândalos provocados pelos donos do poder e com reflexos negativos sobre o bem-estar da maioria dos brasileiros.

Os pobres e a classe trabalhadora padecem da fome, do arrocho salarial, dos impostos excessivos, do aumento de preços, sem precedentes (gás de cozinha, energia, água e alimentos). Mudanças surgem, mas para aniquilar e intensificar o sofrimento dos brasileiros do andar de baixo, como as reformas trabalhista e da previdência, arquitetadas pelo Palácio do Planalto e aprovada pelo Congresso Nacional, através da ação mercantil do hediondo e diabólico CENTRÃO.

Essa política – não há fato que questione – tem sido o sinal da ausência de Cristo, ou seja, ausência do espírito fraterno e de solidariedade entre os seus autores. Na verdade Cristo está presente, mas apenas nas paredes, em fotos e nos falsos discursos.

Estamos atravessando uma pandemia/sindemia, um momento de sofrimento para a maioria dos brasileiros, contudo uma oportunidade ímpar na vida dos grupos mercantis, aqueles que continuam aproveitando a ocasião para aumentar as suas fortunas…Isso é desumano, doentio, asqueroso, abjeto – e inconteste.

Escândalos e mais escândalos é o que percebemos nos jornais escritos, televisivos e nas redes sociais. Aqui, apenas alguns:

– Corrupção na compra da vacina indiana COVAXIM;

– Orçamento secreto;

– Compra de ônibus escolares superfaturados em mais de R$ 700 mil reais;

– Aquisição de kit robótica (e superfaturado 420% mais caro do que o declarado) para escolas sem as mínimas condições de funcionamento;

– Dinheiro público para a compra de 35 mil comprimidos de Viagra, 60 próteses penianas (R$ 3,5 milhões), Minoxidil e a Finasterida (medicamento para combater a calvície) para as forças armadas.

Levantamento feito ainda pelo deputado federal Elias Vaz (PSB) indicam que – de fevereiro de 2021 a fevereiro de 2022 – foram, ainda, exageradamente gastos com as forças armadas: 557 toneladas de filé mignon, 373 toneladas de picanha e 254 toneladas de salmão, totalizando 1.184 toneladas dessas carnes, somados a outros luxos, tais como uísque, bacalhau e alimentos que somente os ricos podem usufruir.

Diante de tais excesso temos mais de 12 milhões de desempregados, um quarto da população brasileira, 52,7 milhões de pessoas, vivendo em situação de pobreza ou extrema pobreza, milhões sofrendo da fome.

A Semana Santa dos brasileiros – do andar de baixo, obviamente – tem sido de um jejum, mas não do simbolismo religioso, mas social, aquele que é característico da pobreza e extrema pobreza, um jejum forçado pelas condições impostas pelos escravos do capital e seus fiéis representantes.

Esta foi uma Semana Santa, cara, muito cara – para os pobres, obviamente -, pois os alimentos foram aumentados em até 50%.

O ato de repartir o pão significa contribuir para melhorar a situação dos pobres, despossuídos, e combater todas as formas de injustiças, como fazia Jesus Cristo, diariamente.

Medidas como reforma trabalhista e da previdência significam a negação do pão, significam o aprofundamento da dor dos nossos irmãos. Os seus autores são avessos à justiça social.

Estou com Dom Hélder Câmara e entendo que não pode ser companheiro quem não reparte o pão. É desumano não repartir o pão.

Considero inimigo dos brasileiros todos aqueles que querem dominá-los e subtrair os seus direitos.

Aos oprimidos e explorados resta o recuo, mas para pegar impulso e voltar com mais força, energia, pressão e intensidade na luta. Enquanto, apenas recuados, contribuímos para a reprodução e potencialização do “status quo”. Pensar, resistir e agir, eis a questão!!!

Muitos pronunciam o nome de Cristo em momentos de oração, nos mais variados espaços ditos religiosos, mas poucos, muito poucos vivenciam o que ele sempre vivenciou: a solidariedade com os pobres e irmãos.

Não há negar: a pobreza é unicamente o resultado da concentração de riqueza, que é potencializada pelo neoliberalismo; jamais da vontade de Deus.

 

Prof. Dagoberto Diniz

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja mais