ESTRANHOS ODORES

Na obediência poética das artes, principalmente nas literárias, os órgãos dos sentidos demostram ter grande importância, pois com suas vastas complexidades conseguem transmutar o belo em insuperáveis vertentes. Os artefatos da visão, da audição, do paladar, do tato e do olfato conseguem não só abrilhantar o sentido da vida, mas também encantar o mundo. Sob um céu desenhado de nuvens molhadas, eles oferecem grandes oportunidades de gozo e lazer.

A visão, com a tosca mania de desmerecer o escuro; a audição, com a vasta capacidade de bisbilhotar o silêncio; o paladar, com a farta condição de perceber azedumes; o tato, com a fina sensibilidade de questionar o áspero; e o olfato, com o demasiado poder de seduzir as essências demonstram, amiúde, a sensibilidade poética dos tons.

Sabe-se que o odor exalado é percebido pelo olfato, identificado na mucosa nasal e reconhecido pelo cérebro. Após análise minuciosa, os neurônios oferecem um variado espectro sensitivo só comparado a exorbitância multicolorida do arco-íris. A plêiade de essências nos dá maravilhosas sensações. As flores e os vinhos com suas notas raras que não nos deixem mentir.

Em algum lugar do passado, um vivente nordestino, que já fora casado duas vezes e ordenado padre é indagado por uma senhora durante uma confissão. Não era comum um pároco, conhecedor dos prazeres da carne e do casamento, continuar rezando missas, casando e batizando pelo mundo afora. Mas assim aconteceu. Deus quis que ele fosse um pastor de almas, em vez de seguir os caminhos do matrimônio. A dupla viuvez o colocou sob o comando dos discípulos de Pedro tendo que andar sobre as águas para provar sua fé. Trilhou uma nova vida em latim, no altar da igreja, conforme as encíclicas vigentes. Seguiu a vida criando os filhos e proferindo homilias.

Também não existiam médicos, farmacêuticos e enfermeiros. Comumente, só existia o vigário com determinação e coragem para conduzir os mais variados problemas enfrentados pelo rebanho desgarrado. O desdobramento em pastor, amigo, psicólogo e confidente era extremamente necessário. Tinha que fazer de tudo um pouco. Não havia como se livrar das intempéries do mundo.

A mulher aflita, ajoelhada no banco lateral do confessionário, fala ao seu guia espiritual.
– Padre, o meu marido já comunicou que vai me largar!
– Mas porquê? Vocês sempre viveram tão bem!
– É que estou com uma doença que está nos maltratando muito.
– Mas que marido é esse, que quer se separar da esposa por causa de uma doença. Isso não é gostar. Pelo contrário, ele tem a obrigação de lhe dar apoio.
– Ele gosta de mim, eu sinto. Mas diz que não suporta mais viver comigo devido a um cheiro ruim que exala das minhas partes íntimas. Já fiz de tudo. Usei asseios e loções, mas nada funciona. O que devo fazer? Ajude-me!
– Não sou médico. Infelizmente, não sei como lhe ajudar. Sinto muito.
– Mas diga alguma coisa. Qualquer coisa. Uma palavra de conforto.
– Minha Senhora… O que sei, é que não existe bom sem defeito!

O cheiro da tua pele é um primor,
o gosto da paixão me azucrina,
o tato do teu corpo me alucina,
o grito da tua voz me traz furor.

A luz do teu olhar me ilumina,
o toque da tua mão me dá calor;
sem vestes, faz-me crer no imenso amor
ao ver teu corpo nu de bailarina.

Se ouço as batidas do meu peito
e vejo a tez da musa – satisfeito –,
aguardo as volúpias da paixão.

Porém, se a penumbra me atrapalha,
farejo as entranhas da muralha
e exploro os segredos da olfação.

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