“Tornar-se conhecido por agradar aos outros”, eis o que nos ensina “A Arte da Prudência”, obra-prima do genial Baltazar Gracián. Ser bem tratado e respeitado é o que todos nós desejamos. Ocorre que, nas relações sociais que envolvem o nosso cotidiano, nem sempre somos acolhidos com urbanidade e respeito. De quando em quando nos deparamos com pessoas que se diferenciam pelo comportamento ofensivo, grosseiro, gerando afastamentos, medos, a subordinação e subserviência.

A nossa história está repleta de pessoas desagradáveis, aquelas que, ao invés da cortesia e gentileza, preferem os recursos do autoritarismo, da indelicadeza, da arrogância sem limites. Preferem ser detestadas a amadas. A nossa realidade continua repleta desses seres abomináveis e repulsivos até parecendo que, dos trogloditas ao homo sapiens, continuam habitando as cavernas.

Conheci e ainda conheço pessoas que são mais identificadas pela insolência, grosseria, estupidez, impetuosidade. Elas estão sempre produzindo o medo em seus semelhantes a fim de serem temidas e respeitadas. Por incrível que pareça, isso é verdade. Essas pessoas estão espalhadas pelas nossas instituições, estão presentes no nosso convívio diário.

Tudo isso tende a produzir o medo, que gera sofrimento, depressão e fuga das relações humanas.

A violência se propaga através de ameaças, olhar de reprovação e de adjetivações vergonhosas, voltadas para inferiorizar, diminuir e humilhar a pessoa. A violência, ainda, acontece através dos fuxicos, fofocas, calúnias, e voltadas para a destruição de reputações. O alvo, geralmente são as pessoas mais fracas, aquelas que têm medo de questionar e denunciar.   

Quem estiver interessado em conhecer essa realidade é só organizar uma pesquisa, uma entrevista com trabalhadores, subordinados, mulheres e adolescentes de todo o Brasil. Assim verificará que a indelicadeza é uma realidade de norte a sul e de leste a oeste, desse imenso e injusto Brasil.

Em tempos distantes o ser humano era atemorizado pelos animais; hoje é o próprio ser humano o causador dos medos e da desmedida violência.

A pessoa faz tudo certo, vive com dignidade, trata os semelhantes com urbanidade, com carinho, mas eis que aparece um outro ou outra promovendo a inimizade, a inferiorização e uma antologia de brutalidades e mentiras sobre as pessoas de bem.  

A vida tem mostrado que muitos humanos – e suas idiossincrasias – são insensíveis e indiferentes à lição de Willian Shakespeare:  É mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que com a ponta da espada”.

Conheço pessoas que se afastaram de determinados locais para fugir dos tratamentos indesejáveis ali praticados. Alguns convivem com o assédio moral, outros procuram o afastamento, o distanciamento.

Tomas Hobbes já dizia de forma genérica ser o homem o lobo do próprio homem (“homo homini lupus”). Algumas pessoas, pelas práticas e ações tirânicas, que lhes são peculiares, enquadram-se plenamente no axioma hobesiano.

Há 300 mil anos na terra, o homem ainda não justificou a sua condição plena de  “sapiens”. Tivemos evolução, havendo o nunca imaginado desenvolvimento científico e tecnológica. Mas as guerras não diminuíram, apenas foram multiplicadas, intensificadas e, a cada dia, mais cruéis por conta da má intenção no uso da ciência e das tecnologias. E o que dizer da fome, da miséria, do aprofundamento das desigualdades sociais, uma consequência da ação do próprio homem na forma cruel de organização e distribuição da produção através do selvagem sistema capitalista?

Exploração, subordinação e inferiorização do outro são situações intrínsecas ao sistema em que a condição “sine qua non” para a sua existência e fortalecimento é a valorização da mercadoria, da mais-valia.

 Vejo como sinal de sabedoria e humanidade vivenciarmos a lição do grande Baltasar Gracián, ou seja, que todos procurem ser conhecidos por agradar aos outros, tratando-os com respeito, afabilidade, benevolência, jamais com indiferença e desprezo. Entretanto, vale acrescentar: sem medo, encarar e desafiar os trogloditas, os especialistas em maus-tratos.

Não sei o fundamento de tanta arrogância, empáfia e presunção presentes em muitos habitantes dessa pequena bola de barro chamada planeta terra.

As pessoas ainda não compreenderam que a vida é breve… fugaz!  Nascemos, crescemos e, logo morremos. Não há outra vida, tudo se acaba na sepultura. Ninguém retorna. Mas seria bom que tudo aqui fosse conforme a imaginação de Dante Alighieri, em “A Divina Comédia” ou seja, inferno, castigo aos que foram cruéis e provocaram o sofrimento ao próximo:

                        (…)

“Mas olha o vale: o rio não é distante

De sangue, onde verás fervendo aquele,

Que violência exerceu no semelhante.

Ó ira louca, ó ambição, que impele

Na curta vida nossa, ao inferno arrasta

E para sempre nos submerge nele”.

                        (…)

Mas é bom não esquecer: o que fizemos ou deixamos de fazer, nossas ações, tudo isso se eternizará na memória e lembrança dos que ficarem, nossa família, parentes, amigos … a humanidade. É assim que retornamos.

Tornar-se conhecido por agradar aos outros”, eis o caminho.

Prof. Dagoberto Diniz

 

 

 

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