FIDELIDADE E ALZHEIMER

Dia 03 de setembro de 2021, sexta-feira, Francisco Gomes da Silva, o Nem, completa três anos de falecimento. Amante do Cordel e da Cantoria, ele perpetuou inúmeras histórias pitorescas de tradição oral nas animadas debulhas de feijão. De memória prodigiosa – decorava um cordel de trinta e duas páginas em duas leituras – narrou-me muitos casos interessantes de seu cotidiano e de gerações passadas. Era um ás na arte de narrar. A simplicidade e o humor – entre deliciosas gargalhadas – davam a tônica dos nossos encontros. No final da conversa fazia sempre questão de recitar um dos clássicos da velha guarda do cordel brasileiro. Coco Verde e Melancia, de José Camelo de Melo Resende, e o Soldado Jogador, do genial Leandro Gomes de Barros, eram os seus prediletos.

Era um homem temente à Deus. Apesar de não demonstrar muita simpatia por religiões, respeitava muito Dona Antônia, sua companheira, que era católica e se orgulhava de ter sido batizada por Padre Cícero do Juazeiro. Ele gostava de declamar um poema, o qual falava que Padim Ciço havia falecido com 90 anos, 03 meses e 26 dias. Quando eu contabilizava a idade de cada um e lhe dizia que ele já havia ultrapassado em muito a idade de Meu Padim e que o mesmo não gostava dessa história, ele sempre ressoava uma estrondosa gargalhada. Terminou a vida superando nosso querido Padim Ciço Romão em 06 anos, 09 meses e 29 dias. Acho que os dois se entenderam lá no céu.

Outra característica marcante de Seu Francisco – e se orgulhava muito disso – era dizer que nunca havia traído sua companheira. Que viveu toda a sua vida para criar os filhos que pôs no mundo, que a amava e respeitava acima de todas as coisas e que nunca, em tempo algum, teria a coragem de colocar outra pessoa ao seu lado, senão ela. Externava o fato com tanta simplicidade e honradez que era difícil encontrar alguém que duvidasse de tal proeza. A bem da verdade, um homem íntegro.

O Mal de Alzheimer é uma doença de lenta e progressiva evolução, que destrói as funções mentais importantes, levando o paciente à demência, um termo usado para indicar que o indivíduo perdeu sua capacidade de raciocínio, julgamento e memória, tornando-o dependente de apoio nas suas atividades diárias. O portador desta patologia chega a um momento da vida que desconhece até pessoas íntimas, como filhos e parentes próximos. Ele vai se separando do mundo real e, em alguns momentos, só consegue lembrar de tempos remotos até o final da existência.

Certa vez, cheguei à sua casa no bairro Sanharol, e encontrei sua companheira aos prantos. Perguntei-lhe o que ocorrera e ela desconversou. Continuou triste e melancólica. Não quis comer e seguiu calada por longo tempo. Mais tarde, já distante das pessoas, e falando como médico, ousei refazer a pergunta. – O que houve? A senhora está muito triste e estamos todos preocupados. Quer conversar comigo? – Ela, discretamente, falou-me em tom abaixo do habitual. – É que Francisco, ontem à noite, me expulsou da cama dizendo que não ia dormir comigo. – Expliquei-lhe que ele agira assim devido à sua doença que já estava em estado avançado. Mesmo assim, ela não teve conformação. Horas depois, perguntei ao fiel e apaixonado marido o que teria havido para ele expulsar sua eterna companheira da cama. Prontamente, ele respondeu. – Essa daí não é Antônia e eu não vou dormir com outra mulher na minha própria casa! Encerro o texto da “terça boa em prosa e versos” com um soneto.

Ser fiel, não é só mostrar fachada
nem tampouco viver grande paixão
é saber manobrar o coração
na subida de vida tão regrada.

É andar vagamente pela estrada,
é entender os porquês da união,
é trilhar pela linha da emoção
e aspergir maravilhas na jornada.

Se o Alzheimer vetar sua inteligência
alterando, de fato, a paciência
só a razão manterá o seu comando.

Vejo em mim um espelho anunciando
e então, eu pergunto-me, até quando
haverei de manter sã consciência?

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